Progressistas e liberais divergem em posições contratualistas e jurídicas sobre as normas internas da sociedade, não apenas porque classificam certas condutas como moralmente aceitáveis ou inaceitáveis, mas porque partem de meios diferentes para responder a essas condutas quando elas aparecem nas relações internas entre indivíduos, empresas, grupos e comunidades.
O progressista tende a converter a norma interna da vida social em problema jurídico, usando o aparato estatal como ferramenta impessoal de correção moral, como se a existência de uma conduta socialmente condenável exigisse uma resposta institucional capaz de padronizar, punir ou reordenar aquela prática. O liberal tende a preservar a resposta no próprio campo das relações sociais, onde crítica, boicote, reputação, concorrência e dissociação voluntária funcionam como meios de correção sem transformar toda divergência moral em comando jurídico.
Dada a lógica democrática do exercício político, essa diferença importa porque a medida das leis pode convergir com as condutas morais de certos grupos da sociedade e, a partir dessa convergência, transformar preferências morais particulares em posições coercitivas impessoais. A moral de uma classe, de uma maioria, de uma coalizão ou de um grupo cultural deixa de operar apenas como reprovação, costume, pressão social ou dissociação, e passa a funcionar como regra geral sobre quais condutas privadas ainda podem ocorrer.
O que antes aparecia como divergência prática entre indivíduos, empresas, consumidores e comunidades passa a ser deslocado para uma forma jurídica abstrata, onde o conflito deixa de ser resolvido pelos próprios agentes envolvidos e passa a ser mediado por uma autoridade que transforma a moral social dominante em critério de permissão ou proibição.
A divergência real, portanto, não está apenas na avaliação de uma conduta específica. Está no método usado para lidar com questões internas dos indivíduos e das associações: converter moral social em norma jurídica, ou permitir que a própria sociedade produza respostas por seus meios internos sem precisar virar Estado.
