Aceito a premissa

O argumento aparece em debates sobre salário, sobre vestibular, sobre trajetória profissional. Alguém menciona esforço, escolha, resultado — e a resposta vem rápida: "meritocracia não existe. Logo você não é fruto dela."

Vou aceitar a premissa por enquanto. E mostrar que a conclusão não segue.

A conclusão não segue da premissa

Dizer que meritocracia não existe no sentido absoluto — um mundo onde cada resultado reflete exatamente e só o mérito individual — é provavelmente verdade. Nenhum sistema humano funciona assim. Existem vantagens de origem, sorte, contexto. Isso é real.

Mas daí não se conclui que nenhum resultado contenha qualquer parcela de mérito.

Isso é um non sequitur. A conclusão não segue da premissa.

Meritocracia não precisa ser absoluta para existir parcialmente. Atacar a versão ideal do conceito para negar qualquer versão concreta é um espantalho — você destrói algo que ninguém defendeu e declara vitória.

Se não existe justiça perfeita, isso não significa que toda decisão judicial seja injusta. Se não existe saúde perfeita, isso não significa que nenhum tratamento funcione. A mesma lógica se aplica. Negar o absoluto não permite concluir nada sobre o parcial.

A falácia tem nome: é uma composição invertida. O que é verdade do ideal não é necessariamente verdade do concreto.

O que esse argumento não é

Reconhecer que mérito existe parcialmente não é negar que desigualdade existe. Não é dizer que vantagens de origem são irrelevantes, nem que contexto não importa. É possível — e necessário — admitir tudo isso sem concluir que escolha individual e esforço não pesam em nada.

A questão não é: "existem fatores fora do seu controle?" A resposta é sim, obviamente.

A questão é: "isso elimina completamente o peso das suas escolhas?" E aí o salto lógico aparece.

O non sequitur não é inocente

O argumento tenta emplacar uma conclusão política usando uma premissa filosófica. Se nenhum resultado contém mérito — se tudo é privilégio, contexto, estrutura — então nenhuma pessoa pode ser responsabilizada por nada. E se ninguém pode ser responsabilizado, toda correção tem que vir de fora.

O destino do argumento não é filosófico. É a legitimação da tutela: alguém externo, munido de força, deve redistribuir resultados que os indivíduos não podem mais reivindicar como seus.

Não precisa aceitar isso. Só precisa notar que a lógica não chega lá por conta própria.