Axioma inicial

O indivíduo tem responsabilidade sobre si mesmo, e sua liberdade só pode ser limitada para impedir agressão aos direitos e à liberdade de outrem.

Isso define a própria noção de individualidade e sustenta a defesa da liberdade de expressão, que, como direito do indivíduo, é uma extensão da propriedade.

E essa propriedade — física ou intelectual — deve ser respeitada porque surge de uma ação individual, não coercitiva.

A liberdade de expressão, sendo extensão da propriedade, sempre se manifesta em um espaço — e todo espaço tem dono. Quem está sob propriedade física ou contratual concorda, de forma implícita ou explícita, com regras. Não por vaidade, mas porque a autoridade sobre o que acontece ali nasce do mesmo princípio que garante a própria liberdade individual.

Exclusão é dissociação - não censura.

A expressão pressupõe espaço, e todo espaço tem um dono. A partir disso surge uma distinção simples: não ter o direito de usar o espaço de alguém não é censura, é consequência direta do direito de propriedade. Se alguém decide não te receber, não te ouvir ou não te permitir agir dentro do que é dele, isso não elimina a tua voz; apenas impede que você use aquele espaço.

Censura real exige algo que indivíduos simplesmente não têm: poder para te impedir de falar em qualquer lugar. Para que alguém seja silenciado de verdade, é necessário um agente com autoridade central, capaz de impor essa proibição de forma obrigatória e sem alternativas.

O resto é dissociação.

E dissociação é exatamente o que mantém a liberdade de cada um. Obrigar convivência, obrigar associações, obrigar espaços privados a aceitarem quem não querem — isso sim é coerção. É o inverso da liberdade.

Contexto recente

É necessário fazer essa distinção porque ela voltou ao debate quando algumas plataformas removeram contas de produtores de conteúdo progressista. A narrativa ganhou força após um Tweet do Sleeping Giants, que tratou essas remoções como “censura”. Mas é justamente aí que está o ponto: não é censura. Remoção em espaço privado é dissociação — não existe censura quando há alternativas, e não existe censura quando quem decide não tem poder de te silenciar em todos os lugares ao mesmo tempo.

É cômico chamar remoção privada de ‘censura’ porque isso revela algo péssimo sobre quem agora pede liberdade: para eles, o que importa não é o princípio, mas a direção ideológica da intervenção. Quando a exclusão atinge o adversário, é ‘moderação’. Quando atinge eles, vira ‘censura’. E, sempre que possível, defendem regulação estatal e mecanismos centralizados para silenciar seus opositores de verdade.

Quando Charlie foi morto, ficou claro um padrão que já vinha aparecendo: muitos desses mesmos grupos, quando a violência política atinge quem eles odeiam, não apenas relativizam — alguns chegam a comemorar. E, quando essa postura gera reações naturais da sociedade — rejeição, boicote, dissociação — passam imediatamente a chamar isso de censura. Mas não é. Não existe direito de defender ou celebrar ataques contra outras pessoas e, ao mesmo tempo, exigir imunidade moral ou social. Dissociação é justamente isso: o direito de não querer conviver com quem cruza limites básicos de civilidade. Não é punição, não é coerção, não é censura — é apenas a consequência direta das escolhas de cada um.

Esse padrão aparece em outras frentes: os mesmos que relativizam violência política também exigem que todos aceitem sem questionar suas posições — seja na defesa constante de criminosos, na normalização de valores que rejeitam responsabilidade individual ou na ideia de que discordar de práticas que lidam com a vida humana deve ser tratado como intolerância. Existe uma expectativa de aceitação obrigatória: toda crítica é opressão, toda diferença é ataque, toda dissociação é censura. Mas liberdade não é submissão moral; é o direito de dizer não. E o direito de dissociar é exatamente o que impede que preferências ideológicas sejam impostas como mandamentos sociais. Sem esse direito, não existe liberdade verdadeira — apenas a obrigação de concordar com quem se julga moralmente autorizado a mandar nos demais.