Tiananmen: a memória que o medo não apagou
Hoje, 4 de junho de 2026, o Massacre da Praça da Paz Celestial completa 37 anos.
Um dia a ser lembrado pela luta daqueles que acreditavam na liberdade e morreram por ela.
A data de hoje serve para lembrar que lutar contra a tirania é um processo árduo, que não precisa esperar um gatilho perfeito, uma autorização moral conveniente ou o momento ideal. A defesa da liberdade é válida a todo momento, justamente porque a tirania raramente aparece de uma vez. Ela avança por etapas. Primeiro como ordem. Depois como exceção. Por fim, como normalidade.
E Tiananmen é uma das imagens mais brutais desse processo.
O protesto antes do massacre
As manifestações de 1989 começaram em abril, depois da morte de Hu Yaobang, ex-secretário-geral do Partido Comunista Chinês e uma figura associada a reformas políticas mais abertas. O luto por Hu virou protesto. O protesto virou ocupação. A ocupação virou um desafio direto ao regime.
Na Praça da Paz Celestial, estudantes pediam combate à corrupção, liberdade de imprensa, liberdade de expressão, maior participação política e reformas democráticas. Trabalhadores também participaram, pressionados por inflação, insegurança econômica e mudanças sociais que vinham junto com as reformas chinesas.
Não era uma pauta perfeitamente organizada. Movimentos reais quase nunca são.
Mas havia um ponto comum: aquelas pessoas estavam contestando a ideia de que o Partido Comunista Chinês tinha o direito natural de controlar a vida política de todo mundo. E isso, para qualquer regime autoritário, é intolerável.
No auge das manifestações, em 17 de maio de 1989, cerca de um milhão de pessoas estavam reunidas na praça, segundo a Wikipédia. Esse número importa porque impede uma leitura conveniente do episódio. Não era uma confusão local. Não era só um bando de estudantes ingênuos. Era uma crise de legitimidade.
A tirania não precisa se explicar
O governo chinês tentou negociar, depois endureceu, depois declarou lei marcial. Em 20 de maio, centenas de milhares de soldados foram mobilizados para Pequim. A primeira tentativa de avanço encontrou resistência de moradores e manifestantes, em grande parte desarmados, que bloquearam ruas, conversaram com soldados e tentaram impedir a entrada do Exército.
Esse detalhe é importante: a tirania não começa necessariamente com o tiro. Muitas vezes ela começa quando o Estado decide que não precisa mais convencer.
Quando o poder abandona o argumento, sobra a força.
Na noite de 3 de junho e na madrugada de 4 de junho de 1989, tropas avançaram em direção ao centro de Pequim. Houve disparos contra civis, manifestantes e pessoas que tentavam bloquear o avanço militar, especialmente nas vias de acesso à praça, como a Avenida Chang'an e a região de Muxidi. Tanques e soldados tomaram as ruas. O número exato de mortos continua incerto: as estimativas variam de centenas a alguns milhares, além de milhares de feridos.
Essa incerteza não é apenas um problema histórico. Ela é parte do mecanismo.
Quando o mesmo Estado que mata também controla a imprensa, os arquivos, as investigações e o debate público, até contar os mortos vira uma disputa política. A vítima perde a vida primeiro. Depois tentam tirar dela o nome.
Liberdade não se defende só quando é fácil
É confortável defender liberdade quando ela já está protegida por instituições fortes, por opinião pública favorável e por baixo custo pessoal. O problema é que essa não é a situação em que a liberdade mais precisa ser defendida.
Em Tiananmen, a defesa da liberdade tinha custo real. Custo físico. Custo social. Custo de futuro. Estudantes podiam ser presos. Trabalhadores podiam perder emprego. Famílias podiam ser perseguidas. E, como a história mostrou, pessoas podiam morrer.
Mesmo assim, elas foram.
Não porque sabiam que venceriam. Não porque havia garantia de sucesso. Não porque o momento era seguro. Foram porque existe um ponto em que obedecer deixa de ser prudência e passa a ser servidão.
Essa é a lição incômoda de Tiananmen: a luta contra a tirania não depende de previsão otimista. Se dependesse, quase ninguém começaria.
O Homem dos Tanques e a imagem da assimetria
No dia 5 de junho, uma cena atravessou o mundo: um homem sozinho, segurando sacolas, parou diante de uma coluna de tanques. Ele ficou conhecido como o Homem dos Tanques.
A força da imagem está na assimetria. De um lado, um indivíduo sem arma, sem cargo, sem blindagem. Do outro, o Estado com tanques, soldados e autorização para esmagar.
Não sabemos com segurança quem ele era, nem o que aconteceu depois. Mas talvez seja justamente isso que torne a imagem tão forte. Ele não virou símbolo por ser uma liderança conhecida. Virou símbolo porque poderia ser qualquer pessoa que, por alguns segundos, recusou a normalidade da opressão.
Tiananmen não foi só um massacre. Foi a colisão entre duas ideias: a de que o Estado pode tudo quando invoca a ordem, e a de que nenhum poder político tem autoridade moral para esmagar pessoas que pedem liberdade.
O massacre continua quando a memória é proibida
Depois dos tiros, veio a segunda parte da repressão: prisões, perseguições, listas de procurados, controle da imprensa e censura. O governo chinês nunca reconheceu o episódio como massacre. A narrativa oficial trata o caso como uma turbulência política que precisou ser controlada para garantir estabilidade.
É sempre assim.
Nenhum regime autoritário se apresenta como tirania. Ele se apresenta como ordem, segurança, estabilidade, combate ao caos, defesa da sociedade. A violência vem sempre embalada em palavras aceitáveis.
Por isso lembrar Tiananmen ainda incomoda tanto. Não é só por causa dos mortos. É porque a lembrança desmonta o vocabulário do regime. Chama massacre de massacre. Chama repressão de repressão. Chama tirania de tirania.
E quando um governo precisa proibir a memória de um evento, ele está confessando que a verdade continua perigosa.
A luta não espera permissão
O Massacre da Praça da Paz Celestial completa 37 anos, mas a sua lição não envelheceu.
A liberdade não é garantida automaticamente pelo tempo, pelo progresso econômico ou pela existência formal de leis. A China cresceu, modernizou cidades, ampliou sua influência no mundo e continuou tratando o 4 de junho como uma ameaça. Desenvolvimento material não substitui liberdade política. Prosperidade sem liberdade ainda pode conviver muito bem com censura, vigilância e medo.
É por isso que datas como essa importam. Elas lembram que tiranias não devem ser combatidas apenas quando já estão maduras, visíveis e assumidas. Devem ser enfrentadas quando começam a normalizar o controle, justificar exceções e ensinar as pessoas a terem medo de falar.
Tiananmen foi uma tragédia, mas também foi testemunho. Pessoas comuns enfrentaram um regime porque entenderam que a liberdade não se preserva sozinha.
Hoje, quem nasceu depois de Tiananmen pode atravessar a vida sem saber exatamente o que aconteceu em 4 de junho de 1989. A memória foi apagada das escolas, da imprensa, da internet e da linguagem pública.
Mas o medo não foi apagado.
Ele atravessou gerações. Ficou no silêncio dos pais, na cautela dos filhos, na ausência de perguntas, na disciplina invisível de quem aprendeu que certas datas não devem ser mencionadas. O regime talvez tenha conseguido esconder o massacre de muitos chineses. O que ele não escondeu foi a mensagem deixada pelos tanques: rebelar-se contra aqueles que estão no alto pode custar a própria vida.

