Domenyk

O efeito javali

2 notas na thread

  1. Há algum tempo, estava sendo discutida em Santa Catarina uma política que pagaria R$ 100 por cada javali abatido. Inicialmente, achei a ideia interessante: javalis são uma espécie invasora, então pagar pelo abate deveria aumentar o número de caçadores e reduzir sua população, correto?

    Não necessariamente, e, em alguns cenários, pode acontecer exatamente o oposto: a política pode acabar aumentando a população de javalis.

    Eu havia ignorado um dos problemas econômicos mais conhecidos envolvendo incentivos: o efeito cobra. Ao pagar por cada javali morto, o governo não cria apenas um incentivo para caçá-los. Ele também transforma cada javali vivo em uma fonte potencial de renda.

    O mecanismo pretendido pela política é simples:

    RAJ\uparrow R \Rightarrow \uparrow A \Rightarrow \downarrow J

    onde RR representa a recompensa, AA o número de abates e JJ a população de javalis.

    O problema é que a população não depende apenas do número de animais abatidos. De forma simplificada, sua variação pode ser representada por:

    ΔJ=N+IAM\Delta J = N + I - A - M

    onde NN representa novos nascimentos, II a introdução de animais vindos de outros locais, AA os abates e MM outras mortes.

    A recompensa atua diretamente sobre AA, mas pode alterar indiretamente NN e II ao criar valor econômico na existência dos próprios javalis.

    Isso não significa que as pessoas necessariamente começarão a criar javalis por R$ 100. O custo e o risco da operação podem tornar isso inviável. Ainda assim, a política pode incentivar criação clandestina, transporte para novas regiões, preservação de animais reprodutores ou simplesmente o interesse em impedir que a população desapareça por completo.

    Imagine, apenas para visualizar o mecanismo, uma população em que durante determinado período ocorram:

    N=100,I=10,A=80,M=20N = 100,\qquad I = 10,\qquad A = 80,\qquad M = 20

    Nesse caso:

    ΔJ=100+108020\Delta J = 100 + 10 - 80 - 20

    ΔJ=10\Delta J = 10

    A população aumentaria em 10 javalis.

    Se a recompensa elevasse os abates de 80 para 130 e nenhuma outra variável mudasse:

    ΔJ=100+1013020\Delta J = 100 + 10 - 130 - 20

    ΔJ=40\Delta J = -40

    A população cairia em 40. Esse é o resultado que a política pretende produzir.

    Mas a conclusão depende da hipótese de que as outras variáveis permanecem constantes. Se a recompensa também criar incentivos para reprodução e transporte, poderíamos ter, por exemplo:

    N=150,I=40,A=130,M=20N = 150,\qquad I = 40,\qquad A = 130,\qquad M = 20

    Então:

    ΔJ=150+4013020\Delta J = 150 + 40 - 130 - 20

    ΔJ=40\Delta J = 40

    Mesmo com o número de abates aumentando de 80 para 130, a população agora cresceria em 40 javalis.

    Portanto:

    AΔJ<0\uparrow A \nRightarrow \Delta J < 0

    Aumentar o número de javalis abatidos não implica, sozinho, reduzir sua população.

    A recompensa pode aumentar o número de javalis abatidos, mas também cria agentes economicamente interessados na continuidade, e até na expansão, do problema. Assim, em vez de reduzir a população, a política pode gerar o efeito adverso de mantê-la estável ou até ampliá-la. O resultado final dependerá de qual desses incentivos prevalecer e de quão difícil será fraudar o sistema.

  2. Eu ignorei a racionalidade econômica

    O mais curioso nesse caso é que eu estou acostumado a analisar incentivos, consequências não intencionais e efeitos de segunda ordem. Ainda assim, quando vi a proposta, achei que ela tinha potencial porque a ideia parecia boa.

    O problema era real, o objetivo era desejável e o mecanismo aparentava ser simples. Isso foi suficiente para que eu aceitasse a primeira cadeia causal que apareceu:

    RAJ\uparrow R \Rightarrow \uparrow A \Rightarrow \downarrow J

    Criar um incentivo para o abate levaria a mais abates e, consequentemente, a menos javalis.

    O erro não estava necessariamente nessa cadeia. Se todo o resto permanecesse constante, ela poderia funcionar. O erro estava em tratá-la como se fosse a única cadeia causal produzida pela política.

    A recompensa também pode produzir:

    R{A N I\uparrow R \Rightarrow \begin{cases} \uparrow A \ \uparrow N \ \uparrow I \end{cases}

    Ou seja, a mesma política pode aumentar simultaneamente o incentivo para matar javalis e os incentivos para criar, transportar ou preservar javalis.

    Eu literalmente só percebi o erro quando li um cara dizendo: “agora a população de javalis vai aumentar”.

    Minha reação foi basicamente :0

    Naquele instante, toda a lógica econômica que eu havia ignorado apareceu de uma vez. Eu estava analisando o comportamento que a política pretendia produzir, mas não todos os comportamentos que ela tornaria economicamente racionais.

    Isso é interessante porque mostra que conhecer um tipo de raciocínio não significa aplicá-lo automaticamente. Uma proposta pode parecer tão intuitivamente boa que até alguém acostumado a procurar incentivos adversos acaba aceitando sua intenção como evidência de eficácia.

    Às vezes, não é necessário aprender um princípio novo. Basta alguém formular a consequência que você deveria ter percebido desde o início.