
O debate sobre a segurança das mulheres trouxe de volta a analogia dos carros com bombas. Ela parece intuitiva, mas só sustenta uma conclusão limitada.
Imagine vários carros diante de você. Alguns contêm uma bomba. Como você não sabe quais explodirão, pode ser racional evitar todos quando o dano for grave e a informação for escassa.
Quem usa essa analogia consegue defender uma conclusão limitada: diante de um dano grave e de pouca informação, uma precaução pode ser racional mesmo quando o risco individual é baixo. Mas a analogia não informa qual conduta essa estimativa autoriza quando trocamos carros por pessoas.
Evitar ficar a sós com um desconhecido, suspeitar que ele possa cometer assédio e acusá-lo de ser assediador são ações diferentes. Cada uma impõe um custo e exige um grau de evidência. Quem diz que “é melhor desconfiar de todos” trata essas condutas como equivalentes.
O teste de simetria revela o problema. Se qualquer diferença estatística entre grupos bastasse para elevar a suspeita contra cada integrante, o mesmo princípio poderia justificar perfilamento racial e outras discriminações. Quem rejeita esses usos precisa indicar quais condições limitam a regra: qualidade do dado, dimensão do risco, contexto, custo do erro e sinais oferecidos pela conduta da pessoa.
Há ainda uma confusão entre duas proporções. Saber que muitos autores de um crime pertencem a determinado grupo não equivale a saber que um integrante desse grupo tem grande chance de cometer o crime. A primeira afirmação descreve quem aparece entre os autores; a segunda mede quantos autores existem dentro do grupo. Confundir as duas transforma um dado sobre criminosos em suspeita contra milhões de pessoas.
Uma mulher pode adotar precauções diante de um homem desconhecido, sobretudo quando o contexto a deixa vulnerável. A justificativa depende do risco presente e do custo da medida escolhida. Isso não autoriza generalizar sobre homens nem converter uma média de grupo em diagnóstico individual.
O carro com uma bomba mostra que a cautela pode ser racional. Ainda falta demonstrar quando essa cautela pode ser dirigida a uma pessoa e qual alcance ela pode ter.