Você apresenta um raciocínio. Antes de examinar o que você disse, alguém pergunta:
“Qual é a sua referência?”
A referência pode estar no próprio argumento.
O primeiro trabalho de quem recebe uma ideia é examiná-la. Quais são as premissas? Elas se sustentam? A conclusão decorre delas? Há contradições ou contraexemplos? As afirmações sobre a realidade correspondem aos fatos?
É nesse caminho entre as premissas e a conclusão que o argumento se sustenta ou fracassa.
Muita gente pula esse exame e faz uma pergunta mais fácil:
“Quem já disse isso?”
Isso não autoriza ninguém a acreditar em qualquer opinião. Afirmações sobre a realidade exigem evidências e, quando necessário, fontes rastreáveis. Minha autoria não valida uma ideia. A autoria de um professor universitário ou de um intelectual morto há duzentos anos também não.
Se as premissas estão justificadas e a conclusão decorre delas, o argumento precisa ser enfrentado. Encontrar outra pessoa que tenha chegado à mesma conclusão não altera sua estrutura lógica.
Referências cumprem funções importantes. Em trabalhos acadêmicos, permitem rastrear informações, atribuir autoria, localizar evidências e conhecer o debate anterior. Também impedem que alguém apresente como descoberta aquilo que apenas copiou.
O problema surge quando uma ferramenta de rastreamento vira autorização para pensar.
Instituições acadêmicas exigem referências para verificar a origem das informações. Muita gente internaliza esse procedimento e passa a aplicá-lo a qualquer afirmação, inclusive àquelas que o leitor pode examinar pela lógica e pelas evidências apresentadas.
Em vez de perguntar:
“Como você chegou a essa conclusão?”
Pergunta:
“Quem chegou a essa conclusão antes de você?”
Quem faz essa troca entrega a validade do argumento a uma autoridade. Se um autor reconhecido disse algo parecido, considera a ideia séria. Sem um nome conhecido, descarta-a antes de analisá-la.
A referência vira um selo de procedência.
Um autor pode fornecer dados que você não possui, definir um conceito com precisão, antecipar objeções ou desenvolver um argumento com mais profundidade. Nesses casos, a citação amplia a explicação.
Em outros, sobra apenas o nome:
“Como dizia Mises…”
Mises ter dito uma frase não explica por que ela é verdadeira.
Talvez ele tenha apresentado um argumento inteiro antes daquela conclusão. Pode ter definido os conceitos, descrito o mecanismo e respondido às objeções. Quem recorta apenas a frase e a apresenta como prova elimina o raciocínio que poderia sustentá-la.
Há algo de cômico nisso: alguém invoca um intelectual para não reproduzir o argumento que levou esse intelectual à conclusão citada. O leitor reconhece o sobrenome, empresta o prestígio do autor à frase e aceita a conclusão sem exigir a demonstração.
Um argumento não herda validade de seu autor.
Mises, Marx, Hayek e Foucault podem estar errados. Qualquer um deles pode partir de uma premissa falsa, cometer uma inferência inválida ou ignorar uma variável relevante.
Se a resposta a uma crítica é apenas o sobrenome de quem formulou a ideia, não houve resposta.
Exigir que toda ideia venha certificada por outra pessoa também cria uma contradição. Alguém precisou formular cada ideia pela primeira vez. Naquele momento, não havia uma referência anterior que dissesse a mesma coisa.
Se cada pessoa precisasse encontrar alguém que já tivesse chegado à mesma conclusão, nenhuma ideia nova poderia surgir.
Nenhuma ideia nasce do nada. Usamos conceitos, observações e conhecimentos desenvolvidos por outras pessoas. Construir sobre esse conhecimento não obriga você a encontrar uma autoridade que já tenha produzido a mesma conclusão.
Você pode ser a sua própria referência.
Isso não torna sua opinião correta nem lhe concede autoridade especial. Significa apenas que a ausência de um nome conhecido não dispensa ninguém de analisar o argumento.
Apresente as premissas. Mostre o mecanismo e a relação causal. Traga as evidências necessárias. Aceite contraexemplos e responda às objeções.
Depois disso, foda-se quem disse primeiro.