Duas pessoas podem discutir se alguém é de esquerda ou de direita e chegar a conclusões diferentes porque utilizam métodos distintos de classificação.
Antes de responder, é necessário saber o que cada uma entende por esquerda e direita. Uma delas pode utilizar um critério social, no qual a esquerda aparece como progressista nos valores e a direita como conservadora. A outra pode adotar um critério econômico e observar os mecanismos que a pessoa defende para organizar a produção, distribuir recursos e transformar valores em instituições.
As duas pessoas utilizam as mesmas palavras para responder a perguntas diferentes. Uma classifica o conteúdo dos valores sociais. A outra classifica os mecanismos econômicos e institucionais.
No critério social, a direita costuma ser associada à religião, à família tradicional, à conservação dos costumes e à valorização de hierarquias. A esquerda, por sua vez, costuma ser identificada pela oposição ou pela menor proximidade com esses valores.
Essa definição possui uma vantagem evidente: ela permite reconhecer certas posições por sinais visíveis. A religião, a sexualidade e os costumes dizem algo sobre o que uma pessoa aprova ou desaprova. O problema começa quando esses sinais passam a classificar toda a sua posição política.
No critério econômico, o objeto muda. A análise passa a observar quais posições a pessoa adota sobre propriedade, produção, preços, contratos e planejamento.
Sob o critério liberal utilizado aqui, a direita econômica exige alguma forma de coordenação descentralizada por propriedade, preços e contratos, além de uma garantia estável dos contratos voluntários. Essas características são necessárias para uma ordem liberal, embora não bastem para classificar qualquer sistema econômico.
A esquerda econômica será entendida como a defesa da direção estatal predominante da produção e da alocação de recursos. A palavra “predominante” importa porque uma intervenção isolada não permite classificar toda a posição econômica de alguém.