Domenyk

Meritocracia é uma discussão extremamente irritante porque quase

  1. Meritocracia é uma discussão extremamente irritante porque quase nunca se define exatamente o que está sendo discutido.

    “Meritocracia” pode significar um sistema de premiação por mérito, uma tese causal sobre a relação entre mérito e resultado ou simplesmente um recurso retórico utilizado para atribuir determinado resultado ao mérito de alguém. Cada um desses usos corresponde a uma discussão diferente e exige premissas diferentes.

    O uso que considero mais irritante é aquilo que normalmente aparece como “falácia da meritocracia”: a ideia de que basta tentar para obter sucesso. Nessa formulação, tentativa, esforço ou mérito deixam de ser fatores que podem contribuir para determinado resultado e passam a ser tratados como condições suficientes para produzi-lo.

    Se chamarmos tentativa de TT e ganho de GG, essa versão forte pode ser resumida como TGT \rightarrow G: havendo tentativa, haverá ganho.

    O problema é que uma afirmação desse tipo é muito fácil de refutar. Basta encontrar alguém que tentou e não conseguiu.

    Uma pessoa pode estudar durante meses e reprovar. Pode abrir uma empresa e perder dinheiro. Pode treinar durante anos e perder uma competição. Pode enviar dezenas de currículos e continuar desempregada.

    Esses casos demonstram que tentativa não garante resultado.

    Mas não demonstram que tentativa seja irrelevante.

    É aqui que duas proposições diferentes costumam ser confundidas. Uma coisa é dizer que tentar produz necessariamente determinado resultado. Outra é dizer que tentar altera as chances de esse resultado ocorrer.

    Alguém pode estudar e reprovar sem que disso se siga que estudar não aumenta suas chances de aprovação. Pode empreender e perder dinheiro sem que disso se siga que determinadas decisões empresariais não alteram as chances de lucro. Pode procurar emprego e continuar desempregado sem que disso se siga que procurar vagas não aumente suas chances de contratação.

    A tese probabilística exige muito menos:

    P(GT)>P(G¬T)P(G\mid T)>P(G\mid\neg T)

    Ela afirma apenas que, em determinadas condições, tentar pode tornar um resultado mais provável do que não tentar.

    Isso é perfeitamente compatível com a existência de fracassos.

    O erro aparece quando o raciocínio é reconstruído da seguinte forma: primeiro alguém afirma que esforço influencia resultados; depois essa afirmação é transformada em “quem se esforça sempre consegue”; em seguida aparece uma pessoa esforçada que fracassou; por fim conclui-se que esforço não importa.

    Mas a conclusão não segue.

    O exemplo refutou apenas a tese forte que dizia que esforço garantia o resultado. Ele não refutou a tese original de que esforço pode alterar sua probabilidade.

    A mesma distinção vale para mérito.

    Podemos chamar de mérito qualquer característica, decisão ou ação atribuível ao próprio indivíduo que tenha relevância para determinado resultado: conhecimento, habilidade, disciplina, persistência, capacidade de decisão, esforço ou outros fatores semelhantes.

    Não é necessário dizer que mérito garante ganho para dizer que mérito importa.

    Imagine dois candidatos disputando uma vaga em condições externas aproximadamente semelhantes. Um deles possui experiência, conhecimento técnico e competências diretamente relacionadas ao trabalho. O outro não possui essas mesmas competências.

    Se essas diferenças aumentam a probabilidade de contratação do primeiro, então parte da explicação do resultado está em características atribuíveis a ele.

    Isso não significa que todo o resultado seja mérito dele.

    Ele ainda pode depender de uma empresa disposta a contratar, de instituições que permitam aquela relação, de conhecimento produzido anteriormente por outras pessoas, de recursos aos quais teve acesso, de oportunidades que não criou e até de circunstâncias puramente contingentes.

    Mas reconhecer fatores externos não elimina automaticamente a relevância das ações individuais.

    Esse ponto parece trivial, mas é frequentemente ignorado: demonstrar que uma causa não explica tudo não demonstra que ela não explica nada.

    Se alguém afirma que determinada pessoa teve oportunidades que outras não tiveram, isso pode ser completamente verdadeiro. O que ainda precisa ser demonstrado é que essas oportunidades explicam o resultado de tal maneira que as decisões, competências ou ações daquela pessoa se tornam causalmente irrelevantes.

    A simples existência de fatores externos não produz essa conclusão.

    Resultados normalmente são multicausais. Uma pessoa pode ter recebido boas oportunidades e ter utilizado essas oportunidades de maneira competente. Outra pode receber condições semelhantes e produzir resultados diferentes. Nesse caso, condições externas e ação individual fazem parte da mesma cadeia causal.

    É justamente por isso que atribuir mérito não exige afirmar que o indivíduo seja a causa exclusiva do resultado.

    Também existe o erro inverso: observar um ganho e presumir imediatamente que ele demonstra mérito.

    Alguém pode ficar rico por herança, conseguir uma posição por favoritismo, receber determinado benefício por sorte ou simplesmente ser favorecido por circunstâncias sobre as quais não teve qualquer responsabilidade.

    Por isso, G⇏MG \not\Rightarrow M: ganho não implica mérito.

    Mas também M⇏GM \not\Rightarrow G: mérito não implica necessariamente ganho.

    Uma pessoa pode ser competente e fracassar. Outra pode ser incompetente e obter ganhos.

    Nada disso exige concluir que mérito e resultado sejam independentes.

    É perfeitamente coerente sustentar três coisas ao mesmo tempo: mérito não garante sucesso; sucesso não demonstra mérito; e mérito pode, ainda assim, alterar a probabilidade de sucesso.

    É nesse sentido que uma definição probabilística de meritocracia me parece mais defensável.

    Um resultado pode ser considerado meritocrático na medida em que características, decisões ou ações atribuíveis ao próprio indivíduo participam causalmente de sua produção. Isso não exige que todo resultado seja meritocrático, que toda pessoa competente seja recompensada ou que toda pessoa recompensada seja competente.

    Também permite reconhecer casos claramente não meritocráticos sem qualquer contradição.

    Se alguém obtém determinada posição exclusivamente por favoritismo, não há razão para atribuir o resultado ao mérito daquela pessoa. Se alguém recebe uma herança, a existência daquele ganho também não demonstra mérito na aquisição do patrimônio.

    Mas mostrar que alguns ganhos não são meritocráticos não demonstra que nenhum ganho possa ser.

    A discussão, portanto, não precisa ser reduzida a “quem quer consegue” de um lado e “tudo depende das circunstâncias” do outro.

    Existe uma hipótese intermediária muito mais plausível: resultados dependem de múltiplas causas; algumas delas são externas ao indivíduo e outras pertencem às suas próprias escolhas, capacidades e ações. Em determinadas situações, essas características individuais alteram significativamente a probabilidade do resultado, ainda que nunca sejam capazes de garanti-lo.

    A chamada falácia da meritocracia erra ao transformar influência em garantia.

    O erro inverso é transformar a ausência de garantia em ausência de influência.

    Provar que “quem tenta sempre consegue” é falso não prova que tentar não faça diferença.