Domenyk

André Bellini fez uma crítica que considero difícil de ignorar. Há

  1. André Bellini fez uma crítica que considero difícil de ignorar. Há décadas, a política brasileira tenta convencer o eleitor de que é possível consertar o país sem apresentar a conta.

    Candidatos prometem cortar desperdícios, acabar com privilégios, melhorar os serviços, equilibrar as contas e preservar quase tudo o que já existe. O custo das reformas costuma aparecer, quando aparece, só depois da eleição.

    Renan Santos tem feito o contrário.

    Em rede nacional, ele se declarou contra o fim da escala 6x1, ainda que isso lhe custe votos. Também defendeu uma nova reforma da Previdência, a desindexação das aposentadorias em relação ao salário mínimo e o fim da vinculação dos gastos de saúde e educação à receita.

    Ele apresenta o remédio junto com os efeitos colaterais. Diz antes da eleição que haverá custos e que alguém terá de pagar parte da conta.

    Bellini é, sem exagero, um dos economistas que mais respeito no Brasil. Concordo com praticamente cada vírgula do que ele escreveu sobre isso.

    Corrupção e incompetência explicam parte dos problemas da política brasileira, mas existe outro incentivo que não podemos ignorar: eleições recompensam quem esconde custos. O brasileiro quer ajuste fiscal, mas não quer perder benefícios. Quer uma Previdência sustentável, mas rejeita reformas. Quer menos gasto público, desde que nenhum corte atinja a área da qual depende.

    Enquanto esse for o jogo, sempre haverá um político disposto a prometer que tudo pode ser resolvido sem dor.

    Eu ainda não diria que Renan Santos é, em definitivo, o melhor candidato. Também não preciso comprar o programa inteiro dele para reconhecer o que o diferencia. Entre os candidatos que estão postos, ele parece ser o único disposto a recusar esse jogo.

    Você pode discordar de qualquer proposta dele. Existe, ao menos, uma cadeia lógica exposta ao eleitor: um problema identificado, uma medida para enfrentá-lo e custos reconhecidos antes da eleição.

    Parece uma exigência básica. Na política brasileira, chega a ser quase revolucionária.

    Essa franqueza é o que mais me tranquiliza em relação a Renan. Não considero seu programa perfeito. O que vejo é alguém tentando fazer política sem tratar o eleitor como uma criança que precisa ouvir que tudo vai melhorar sem que nada doa.

    Ainda assim, há uma ressalva importante.

    Renan Santos é, para mim, um tecnocrata. Eu não confio plenamente no modelo tecnocrático de política. Não acredito que os problemas sociais possam ser resolvidos colocando especialistas no poder e dando a eles autoridade para coordenar a vida dos outros. Competência técnica não elimina problemas de incentivos, informação, poder ou legitimidade.

    Essa desconfiança não muda o fato de que Renan fala de problemas que precisam ser enfrentados.

    Também não existe contradição entre rejeitar a tecnocracia como modelo político e apoiar, dentro de uma coalizão concreta, medidas propostas por tecnocratas. Algumas dessas medidas podem ampliar a liberdade, reduzir distorções e desmontar estruturas que restringem escolhas individuais e pressionam as contas públicas.

    Não preciso partir do mesmo fundamento político que Renan para reconhecer que, neste momento, parte de seu programa coincide com aquilo que considero necessário para o Brasil.

    Esse é o meu ponto de coalizão.

    Continuo liberal. Continuo desconfiando da tecnocracia. Continuo discordando de partes importantes do modelo político de Renan Santos.

    Entre as alternativas que estão postas, porém, ele é quem trata com mais seriedade alguns dos problemas que considero urgentes. É também quem se mostra disposto a dizer, antes da eleição, que resolvê-los tem custo.

    Pela primeira vez, vou registrar abertamente aqui no site a minha intenção de voto:

    eu quero e vou votar no Renan Santos.