10 de setembro · um ano depois
Hoje faz um ano que Charlie Kirk foi assassinado enquanto defendia publicamente suas opiniões.
Como alguém que influenciou diretamente este site, sua morte também teve importância no que veio depois.
Eu já não acredito na possibilidade de diálogo saudável com extremistas. Do ponto de vista do próprio debate, insistir nisso é irracional. Uma discussão só existe enquanto as partes reconhecem minimamente o direito da outra de falar, discordar e continuar existindo depois da conversa.
Por isso, tento escrever e argumentar para aqueles que estão dispostos a me escutar sem transformar divergência política em justificativa para violência.
Desde então, também passei a perceber com mais atenção outro movimento: pessoas cada vez mais extremas em suas posições e cada vez mais próximas de aceitar algum tipo de autoritarismo, desde que seja o autoritarismo que consideram correto.
Parece que as pessoas deixaram de enxergar seres humanos.
Como alguém que debate política praticamente todos os dias, é perceptível uma falha no próprio objeto do debate: as pessoas se esquecem da realidade e, principalmente, de seu elemento mais básico, o indivíduo.
Mesmo a pessoa mais próxima de você é infinitamente diferente de você. Ela viveu experiências diferentes, teve acesso a informações diferentes, formou associações diferentes e chegou a posições que podem ser completamente distintas das suas.
Eu sou convicto de muitas das minhas ideias, e duvido que tantas outras pessoas também não sejam. Ao mesmo tempo, todos estamos presos, em algum grau, ao conjunto limitado de informações ao qual tivemos acesso, às interpretações que construímos e às experiências que moldaram a maneira como enxergamos o mundo. Isso inevitavelmente nos afasta até mesmo daquele que está mais próximo.
Charlie Kirk não era um conjunto de ideias que poderia ser destruído. Não era o “fascismo” que atribuíram a ele, assim como eu não sou o “fascismo” que algumas pessoas atribuem a mim.
Era um indivíduo.
Transformar uma pessoa em uma abstração política torna muito mais fácil esquecer aquilo que existe por trás dela. Você deixa de enxergar alguém que pensa, escolhe, erra, aprende, possui relações, projetos e uma história própria, e passa a enxergar apenas uma categoria a ser combatida.
E isso muda completamente a natureza do conflito.
Matar Charlie Kirk não destrói uma ideia. Não destrói o conservadorismo, a direita, o fascismo ou qualquer outra abstração que alguém tenha decidido associar a ele. Destrói uma vida individual.
Talvez seja justamente esse o problema que mais me incomoda na política atual. O adversário deixa de ser alguém com quem você discorda e passa a representar alguma coisa maior que ele próprio. A partir daí, qualquer agressão contra aquele indivíduo pode ser racionalizada como uma agressão contra aquilo que ele supostamente representa.
Quando isso acontece, a violência deixa de ser julgada pelo ato e passa a ser julgada pelo alvo.
Quando a divergência chega a esse ponto, o debate já perdeu sua função.