Socialismo não é bondade.
Isso deveria ser óbvio, mas boa parte da maneira como o socialismo e o comunismo são apresentados hoje depende de misturar as duas coisas.
Quando alguém tenta vender a ideia, quase nunca começa falando de propriedade, planejamento, preços, produção ou alocação de recursos.
Começa falando de gente tendo casa.
De ninguém passando fome.
De igualdade.
De ajudar os mais pobres.
De garantir dignidade.
Só que isso não é socialismo.
É o resultado que a pessoa espera alcançar.
E, porra, um liberal pode querer exatamente as mesmas coisas.
Eu posso querer que ninguém passe fome, que as pessoas tenham casa, que os salários aumentem e que quem hoje vive mal passe a viver melhor.
Nada disso me torna socialista.
O que diferencia uma posição econômica de outra não é o resultado que cada pessoa deseja.
É o que ela propõe fazer para chegar até ele.
A discussão fica estranha quando alguém apresenta uma premissa econômica e pula direto para o resultado desejado.
Socializar alguma coisa vira igualdade.
Planejamento vira distribuição justa.
Controle vira garantia.
Como se a proposta já trouxesse o resultado dentro dela.
Não traz.
Mesmo quando a conversa parece avançar, muitas vezes ela continua presa ao mesmo ponto.
Antes a pessoa dizia:
“Quero que todos tenham casa.”
Agora ela diz:
“Para isso, precisamos abolir a propriedade privada dos meios de produção.”
Parece que o argumento avançou bastante.
Economicamente, porém, quase toda a explicação ainda está faltando.
Mas abolir a propriedade privada já não é aprofundar o argumento?
Sim. Você disse mais do que antes.
Abolir a propriedade privada define a regra institucional que você pretende mudar. Ainda falta explicar o que acontece depois da mudança.
Quem passa a controlar esses recursos?
Quem decide onde eles serão empregados?
Como se escolhe entre dois usos concorrentes para o mesmo recurso?
Como se define o que produzir, em qual quantidade e onde?
Como os responsáveis identificam decisões erradas?
Como comparam alternativas diferentes?
É aqui que a conversa começa a entrar na economia.
Uma coisa é dizer que determinado tipo de propriedade deixará de existir. Outra é explicar como a produção e a alocação de recursos funcionarão depois disso.
Um argumento pode ganhar várias camadas e continuar dizendo, no fundo, a mesma coisa.
“Queremos igualdade.”
“Então os meios de produção devem pertencer à coletividade.”
“Então a produção será voltada às necessidades.”
Cada frase parece mais profunda que a anterior.
Mas ainda cabe perguntar: como?
E quase toda a resposta pode continuar faltando.
Você descreveu com mais detalhes o que pretende fazer e o que espera que aconteça.
Ainda não explicou como uma coisa produziria a outra.
Dar nomes mais específicos às premissas não aprofunda uma posição. O argumento avança quando você explica o que decorre dessas premissas.
Mas socialistas não discutem planejamento, preços e organização da produção?
Sim. Esse debate existe dentro da teoria socialista.
Há uma discussão enorme sobre planejamento, preços, propriedade e organização da produção.
Minha crítica é à maneira comum como essas ideias são apresentadas, porque muita gente chega à abolição da propriedade privada e para por ali.
A abolição da propriedade privada não é o resultado econômico.
É o ponto de partida para uma quantidade enorme de outras perguntas.
A própria abolição da propriedade privada dos meios de produção não determina uma única forma de organização econômica.
Alguns socialistas defendem planejamento central. Outros propõem formas descentralizadas, socialismo de mercado, cooperativas ou diferentes arranjos.
Isso reforça o problema.
Se a mesma premissa permite mecanismos diferentes, ela não pode explicar sozinha qual será o resultado.
Você precisa dizer qual mecanismo defende e explicar o que acontece dentro dele.
Querer que todo mundo tenha casa não explica sua posição econômica.
Querer acabar com a pobreza também não.
Querer uma sociedade mais justa também não.
Defender a abolição da propriedade privada já diz um pouco mais. Mesmo assim, ainda falta explicar como a economia resultante produziria aquilo que foi prometido no começo.
Mas se nós queremos as mesmas coisas, onde exatamente está a diferença?
Nos meios.
Eu posso concordar com todos esses objetivos e discordar completamente de você sobre como alcançá-los.
Socialismo e comunismo não são teorias sobre querer coisas boas. São teorias sobre como propriedade, produção, distribuição e controle econômico devem funcionar.
Esse é o núcleo da divergência.
Quem entende socialismo como “todo mundo tendo casa”, “ninguém passando fome” ou “as pessoas vivendo com dignidade” ainda não entendeu o que o socialismo defende.
Entendeu a promessa feita em nome dele.
São coisas diferentes.
Essa distinção permite uma crítica econômica de verdade, porque eu posso examinar os mecanismos que você defende e argumentar que eles produzem efeitos contrários aos seus objetivos.
Aí, sim, existe uma discussão.
Dizer “eu quero igualdade”, “eu quero ajudar os pobres” ou “eu quero que todos tenham acesso a alguma coisa” ainda não forma uma teoria econômica.
Expressa um desejo.
E o mesmo desejo pode existir no socialismo e no liberalismo.
A diferença aparece nos mecanismos defendidos.