O Banco Master demonstra uma falha liberal?
Não é novidade que tentem distorcer a teoria liberal, e o caso do Banco Master virou um prato cheio para isso: "Veja o que um bilionário conseguiu fazer. Isso mostra como o capitalismo é falho."
Se uma fraude desse porte acontecesse na Suíça, eu entenderia a crítica. Mas é sério que pretendem demonstrar uma incoerência liberal com um caso que envolve sobretudo políticos e ações do Estado?
O agente não explica o mecanismo
"Mas Vorcaro é da iniciativa privada." Sim. A teoria liberal nunca negou que alguém da iniciativa privada possa cometer fraude. O comportamento dele é totalmente explicável pela lógica dos incentivos econômicos. Vorcaro encontrou uma forma de ganhar dinheiro pra caralho e tentou explorá-la porque tinha recursos, conhecimento e incentivos para isso.
Ser da iniciativa privada só diz quem agiu. Não diz como Vorcaro conseguiu levar a fraude àquela escala. Ele era da iniciativa privada, mas usou sobretudo meios públicos.
O que mudaria sem esses mecanismos?
Eu não preciso rebater toda crítica ao "capitalismo" para fazer uma pergunta: alguém acha que Vorcaro teria alcançado a mesma escala se o Brasil não fosse tão estatista?
Ele ainda poderia prometer retornos acima da taxa de juros. Em algum momento, porém, teria de sustentar essas promessas com recursos próprios ou captados voluntariamente. Se não conseguisse pagar os credores, perderia confiança, teria dificuldade para continuar captando e responderia pela fraude.
Sem os mesmos canais públicos, não conseguiria ampliar da mesma forma o alcance dos recursos e da influência de que dispunha.
O problema da concentração da decisão
Imagine R$ 2 bilhões nas mãos de poucas pessoas poderosas. Se Vorcaro convencesse esse pequeno grupo, teria acesso ao dinheiro e à influência que aquelas pessoas concentravam.
Agora espalhe os mesmos R$ 2 bilhões entre milhares de pessoas comuns, sem poder comparável. Para chegar ao dinheiro, Vorcaro teria de convencer cada uma delas.
Algumas poderiam recusar participar da fraude apenas por não querer correr o risco. Mesmo que muitas aceitassem, Vorcaro continuaria limitado ao dinheiro que elas concordassem em colocar em risco e aos meios privados que conseguissem usar.
O ponto não é eliminar o incentivo à fraude
Num arranjo liberal, alguém da iniciativa privada continuaria tendo incentivos para fraudar. O tamanho da fraude dependeria de quanto dinheiro conseguisse captar, de quanto risco pudesse transferir e de quantas pessoas precisasse convencer.
Quando o fraudador consegue reduzir os próprios riscos ou usar, por meio da corrupção, o poder coercitivo público, a fraude pode chegar muito mais longe.