Domenyk

O Liberal conservador Existe uma posição que eu mesmo já havia

  1. O Liberal conservador

    Existe uma posição que eu mesmo já havia aceitado, mas que, depois de revisá-la, percebi estar formulada de maneira incorreta: a tese de que um liberal, por definição, não poderia ser conservador.

    Se tomarmos liberalismo e conservadorismo como doutrinas institucionais completas, existe de fato uma tensão entre eles. Uma ordem liberal forte reduz ou elimina diversos mecanismos jurídicos e institucionais pelos quais determinadas práticas, valores ou estruturas sociais poderiam ser preservados coercitivamente. Nesse sentido, o liberalismo não garante a conservação das instituições valorizadas pelo conservador e permite que elas sejam substituídas caso os próprios indivíduos deixem de sustentá-las.

    A questão muda, porém, quando separamos o julgamento moral do indivíduo de sua posição acerca da ordem jurídica e institucional.

    Foi justamente essa distinção que eu não havia tratado adequadamente quando rejeitei anteriormente a possibilidade de um liberal conservador.

    Eu julgava incompatível a ideia de um liberal conservador a partir de uma projeção da minha própria posição pessoal. Eu não apenas defendo uma concepção muito forte de liberdade individual, como também tendo a aplicá-la aos meus julgamentos sobre costumes, comportamentos e formas de vida. Por isso, tratei como incompatibilidade conceitual aquilo que, em parte, era apenas uma coincidência entre minhas preferências pessoais e minha posição institucional.

    Mas as duas coisas não precisam coincidir.

    É coerente que um indivíduo defenda, no campo jurídico e institucional, uma liberdade extremamente ampla para que outras pessoas conduzam suas próprias vidas e, ao mesmo tempo, no exercício de sua própria autopropriedade, adote valores conservadores para si.

    Ele pode considerar determinadas práticas moralmente erradas sem defender sua proibição. Pode preferir determinadas formas de família, comportamento ou associação sem pretender impô-las a terceiros. Pode desejar preservar certas tradições dentro das instituições das quais participa sem reivindicar que o Estado obrigue os demais a preservá-las.

    Nesse caso, o conservadorismo aparece no plano normativo e pessoal: diz respeito aos valores segundo os quais o indivíduo escolhe conduzir sua própria vida e organizar voluntariamente suas relações.

    O liberalismo aparece em outro plano: estabelece quais poderes ele considera legítimo exercer sobre terceiros e quais mecanismos jurídicos e institucionais considera admissíveis.

    Portanto, não há contradição necessária entre ser liberal na ordem institucional e conservador no plano pessoal. A contradição só apareceria caso o conservadorismo do indivíduo exigisse mecanismos coercitivos incompatíveis com as próprias premissas liberais que ele afirma defender.