Domenyk

Surgiu agora uma tentativa infeliz e muito forte de tentar assimilar

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    Surgiu agora uma tentativa infeliz e muito forte de tentar assimilar o discurso da direita, tornar um discurso "legítimo". O vocabulário mudou. Agora aparecem distinções entre direita e bolsonarismo, entre liberal e autoritário, entre conservador e extremista. Algumas posições que antes eram tratadas como sinal de atraso moral passaram a ser apresentadas como divergências legítimas.

    A mudança é interessante porque não parece ter vindo acompanhada de uma mudança equivalente na forma de compreender essas ideias. O que mudou foi a necessidade de falar com esse eleitorado. E isso faz diferença, porque uma coisa é abandonar uma caricatura depois de perceber que ela era ruim. Outra é abandoná-la quando a caricatura deixa de ser eleitoralmente útil.



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    Geraldo Alckmin é um bom exemplo disso. Durante anos, foi tratado por setores da esquerda como representação quase perfeita da direita que precisava ser combatida. A charge de 2012 resume bem o ambiente político da época.

    Depois veio o impeachment de Dilma, que Alckmin apoiou. Depois veio 2022, quando entrou na chapa de Lula. E a linguagem mudou junto. O personagem que antes cabia naquele enquadramento passou a ocupar outro: moderado, democrático, institucional, necessário.

    O ponto não é Alckmin. O ponto é perceber como certas classificações políticas parecem depender menos daquilo que alguém defende e mais do lugar em que essa pessoa está posicionada.

    Enquanto adversário, suas ideias são comprimidas até caberem na pior interpretação possível. Quando se torna aliado, aparecem nuance, contexto, moderação e complexidade. O incentivo é bastante claro: o adversário precisa ser simplificado porque a caricatura organiza a disputa; o aliado precisa ser reinterpretado porque a coalizão exige convivência.

    E agora essa mesma lógica começa a aparecer na relação com o eleitor de direita. De repente, existe uma “direita razoável”, existem liberais com quem vale a pena conversar e diferenças internas que precisam ser respeitadas. Pessoas que antes eram empurradas para o mesmo campo político agora precisam ser separadas umas das outras.

    Tudo isso foi descoberto no momento em que passou a existir interesse em disputar esse voto.

    É isso que torna essa aproximação tão pouco convincente. Não houve um esforço real de compreender de onde essas posições surgem, por que alguém rejeita determinada política pública, desconfia de certas instituições, prefere determinadas soluções econômicas ou simplesmente chega a conclusões diferentes. O que houve foi uma mudança de embalagem. A divergência continua no mesmo lugar, só ficou mais apresentável.

    A caricatura deu lugar à linguagem da aproximação, mas sem que o conteúdo da relação tenha mudado na mesma proporção. Empatia política sem curiosidade pelo raciocínio do outro é só estética.

    Ninguém veio até mim, ninguém veio conversar, a divergência existe sob uma vitrine transvestida de empatia.