Domenyk

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  1. Um menino guardava um rebanho no alto de um monte. As ovelhas pastavam, e os lavradores trabalhavam nas terras próximas. Ele passava o dia sozinho. Para se divertir, resolveu chamá-los.

    “O lobo!”, gritou. “O lobo está vindo!”

    Os homens largaram o trabalho e correram até o rebanho. Não encontraram lobo algum. O menino ria ao vê-los chegar. Depois de procurarem entre as ovelhas e nos arredores, os homens compreenderam a brincadeira e voltaram ao que faziam.

    Alguns dias depois, ele gritou de novo. Os lavradores deixaram o trabalho e subiram o monte. Encontraram as ovelhas pastando e o menino rindo. Ele conseguira enganá-los outra vez.

    Um dia, um lobo apareceu e entrou no rebanho. As ovelhas se dispersaram. O menino chamou os lavradores, usando as mesmas palavras com que os enganara.

    “O lobo! Venham depressa!”

    Os homens ouviram os gritos. Nenhum deles foi até o monte. Esperavam encontrar a mesma brincadeira e não queriam abandonar o trabalho mais uma vez.

    O menino continuou a gritar enquanto o lobo atacava as ovelhas. Quando o animal foi embora, parte do rebanho estava morta. Ninguém tinha vindo ajudá-lo.

  2. A esquerda que chama de nazista qualquer adversário montou um tribunal cômodo. O acusador dispensa o exame daquilo que o acusado defende. Ele criticou uma proposta, rejeitou o comunismo ou votou na direita; já há material suficiente para a condenação. Quem o julga pode deixar a demonstração para depois, pois já tomou o rótulo que escolheu como prova de que a acusação procede.

    Mas ser contra o comunismo não implica ser a favor do nazismo. Quem afirma essa relação deve demonstrá-la. É ao acusador que cabe apontar o que o adversário defende e justificar o rótulo que escolheu. Sua hostilidade à direita não o dispensa dessa obrigação.

    Nesse tribunal, o acusador também reserva para si o papel de herói. Chama o adversário de fascista e se apresenta como alguém que enfrenta o fascismo. A comparação lhe concede um mérito que ele ainda não demonstrou. Um liberal atual faria algo igualmente conveniente se esperasse receber o mérito dos liberais que enfrentaram a monarquia francesa apenas por se declarar antimonarquista. Em ambos os casos, o título é mais fácil de obter que a prova.

    Enquanto essa encenação ocupa o debate, o acusado deixa de ser examinado pelo que disse ou propôs. Já recebeu um nome grave, e o acusador pode exigir atenção sem sustentar o próprio argumento. O menino da fábula também conseguiu fazer os lavradores largarem o trabalho. Para isso, bastou anunciar um perigo que não estava lá.

    Se a mesma palavra condena qualquer pessoa de direita, quem a ouve já não consegue saber o que ela descreve. Aprende apenas que o acusador encontrou alguém de quem discorda. O acusador pode repetir o grito, mas quem já subiu o monte à toa tem razões para desconfiar dele.

    No caso de Flávio, a crítica é ao uso dessa mesma acusação desgastada. Não estou dizendo que ele seja nazista nem que o lobo tenha chegado agora. Estou dizendo que trocar o nome do acusado não devolve a confiança a quem repete o alarme.

    Quem pretende denunciar uma ameaça real deveria ser o primeiro a recusar esse hábito. Ao usar uma acusação grave para qualquer divergência, dificulta que os outros reconheçam o perigo quando ele existir. Os lavradores da história chegaram a ouvir o último pedido de socorro. O menino havia feito tudo para que eles esperassem mais uma mentira.