A esquerda que chama de nazista qualquer adversário montou um tribunal cômodo. O acusador dispensa o exame daquilo que o acusado defende. Ele criticou uma proposta, rejeitou o comunismo ou votou na direita; já há material suficiente para a condenação. Quem o julga pode deixar a demonstração para depois, pois já tomou o rótulo que escolheu como prova de que a acusação procede.
Mas ser contra o comunismo não implica ser a favor do nazismo. Quem afirma essa relação deve demonstrá-la. É ao acusador que cabe apontar o que o adversário defende e justificar o rótulo que escolheu. Sua hostilidade à direita não o dispensa dessa obrigação.
Nesse tribunal, o acusador também reserva para si o papel de herói. Chama o adversário de fascista e se apresenta como alguém que enfrenta o fascismo. A comparação lhe concede um mérito que ele ainda não demonstrou. Um liberal atual faria algo igualmente conveniente se esperasse receber o mérito dos liberais que enfrentaram a monarquia francesa apenas por se declarar antimonarquista. Em ambos os casos, o título é mais fácil de obter que a prova.
Enquanto essa encenação ocupa o debate, o acusado deixa de ser examinado pelo que disse ou propôs. Já recebeu um nome grave, e o acusador pode exigir atenção sem sustentar o próprio argumento. O menino da fábula também conseguiu fazer os lavradores largarem o trabalho. Para isso, bastou anunciar um perigo que não estava lá.
Se a mesma palavra condena qualquer pessoa de direita, quem a ouve já não consegue saber o que ela descreve. Aprende apenas que o acusador encontrou alguém de quem discorda. O acusador pode repetir o grito, mas quem já subiu o monte à toa tem razões para desconfiar dele.
No caso de Flávio, a crítica é ao uso dessa mesma acusação desgastada. Não estou dizendo que ele seja nazista nem que o lobo tenha chegado agora. Estou dizendo que trocar o nome do acusado não devolve a confiança a quem repete o alarme.
Quem pretende denunciar uma ameaça real deveria ser o primeiro a recusar esse hábito. Ao usar uma acusação grave para qualquer divergência, dificulta que os outros reconheçam o perigo quando ele existir. Os lavradores da história chegaram a ouvir o último pedido de socorro. O menino havia feito tudo para que eles esperassem mais uma mentira.