Domenyk

Notas

Toda vez que aparece uma discussão sobre banheiros trans, a conversa

Toda vez que aparece uma discussão sobre banheiros trans, a conversa costuma girar em torno de qual regra seria mais inclusiva, mais respeitosa ou mais correta.

O interessante é que a discussão é extremamente rápida: existe uma preferência moral aparentemente louvável e, por isso, ela deve se tornar uma obrigação jurídica.

A estrutura geralmente é essa:

X é moralmente desejável, logo X deve ser obrigatório.

Demonstrando dessa forma, fica meio óbvio o problema, não? Pois é.

A ideia de que as preferências de alguém devem automaticamente se tornar uma obrigação jurídica aparentemente deixa de parecer reprovável quando produz algo que essa pessoa já considera moralmente válido.

Imagine que, por algum motivo, políticos determinassem que cruzes deveriam ser colocadas em todos os estabelecimentos porque elas concederiam proteção divina. Bem, o argumento poderia até parecer tentador de certa forma: o custo seria baixo, seria uma proteção e, mesmo que algumas pessoas não aprovassem moral ou religiosamente, por que não fazer?

Aí o problema fica explícito, não? Você simplesmente não deveria ter o direito de impor aquilo que considera moralmente aceitável sobre todas as propriedades.

O argumento de que banheiros trans seriam simplesmente o

O argumento de que banheiros trans seriam simplesmente o reconhecimento de um “direito” dessas pessoas também parte de uma confusão anterior.

No sentido liberal mais estrito, um direito não surge porque o Estado obrigou outra pessoa a fornecer alguma coisa. Quando determinados estabelecimentos são juridicamente obrigados a oferecer instalações sanitárias, aquilo já deixou de ser apenas resultado de uma relação contratual entre proprietário e usuário: existe uma obrigação imposta previamente pela força.

O curioso é o que acontece depois.

Primeiro, o Estado obriga o proprietário a fornecer determinada estrutura. Como essa estrutura passa a existir obrigatoriamente, seu fornecimento começa a ser tratado como um “direito” do usuário. Depois, esse suposto direito é combinado com outra conclusão moral, por exemplo, a necessidade de reconhecimento da identidade de gênero, para justificar uma nova obrigação sobre a maneira como aquela estrutura deve funcionar.

A obrigação anterior passa, então, a funcionar como premissa para a criação da obrigação seguinte.

Mas a existência de uma intervenção não demonstra a legitimidade de sua expansão. Se eu começo obrigando alguém a fornecer X, não posso depois utilizar o fato de X ser obrigatório como demonstração de que terceiros adquiriram novos direitos sobre como X deve ser fornecido.

O raciocínio inverte completamente a relação. Em uma ordem fundada

O raciocínio inverte completamente a relação.

Em uma ordem fundada na propriedade e na liberdade contratual, é o proprietário quem oferece determinadas condições de uso, e os indivíduos decidem se aceitam, recusam ou deixam de contratar. A obrigação surge do acordo entre as partes, e não porque uma delas conseguiu transformar sua preferência sobre a propriedade alheia em uma regra geral.

Quando fazemos o contrário, não estamos descobrindo sucessivamente novos direitos. Estamos apenas utilizando uma coerção anterior como justificativa para ampliar a próxima. Esse talvez seja um dos exemplos mais claros de como uma intervenção cria o precedente normativo usado para justificar outra.

Duas pessoas podem discutir se alguém é de esquerda ou de direita e

Duas pessoas podem discutir se alguém é de esquerda ou de direita e chegar a conclusões diferentes porque utilizam métodos distintos de classificação.

Antes de responder, é necessário saber o que cada uma entende por esquerda e direita. Uma delas pode utilizar um critério social, no qual a esquerda aparece como progressista nos valores e a direita como conservadora. A outra pode adotar um critério econômico e observar os mecanismos que a pessoa defende para organizar a produção, distribuir recursos e transformar valores em instituições.

As duas pessoas utilizam as mesmas palavras para responder a perguntas diferentes. Uma classifica o conteúdo dos valores sociais. A outra classifica os mecanismos econômicos e institucionais.

No critério social, a direita costuma ser associada à religião, à família tradicional, à conservação dos costumes e à valorização de hierarquias. A esquerda, por sua vez, costuma ser identificada pela oposição ou pela menor proximidade com esses valores.

Essa definição possui uma vantagem evidente: ela permite reconhecer certas posições por sinais visíveis. A religião, a sexualidade e os costumes dizem algo sobre o que uma pessoa aprova ou desaprova. O problema começa quando esses sinais passam a classificar toda a sua posição política.

No critério econômico, o objeto muda. A análise passa a observar quais posições a pessoa adota sobre propriedade, produção, preços, contratos e planejamento.

Sob o critério liberal utilizado aqui, a direita econômica exige alguma forma de coordenação descentralizada por propriedade, preços e contratos, além de uma garantia estável dos contratos voluntários. Essas características são necessárias para uma ordem liberal, embora não bastem para classificar qualquer sistema econômico.

A esquerda econômica será entendida como a defesa da direção estatal predominante da produção e da alocação de recursos. A palavra “predominante” importa porque uma intervenção isolada não permite classificar toda a posição econômica de alguém.

A diferença entre os métodos está no objeto observado. O primeiro

A diferença entre os métodos está no objeto observado. O primeiro examina valores sociais. O segundo procura saber quem decide, quais instrumentos utiliza e quanto poder entrega ao Estado para produzir determinado resultado.

O critério social popular se torna fraco quando pretende responder à segunda pergunta. Valores ligados à religião, à família e aos costumes podem aparecer tanto em alguém que defende a centralização econômica quanto em alguém que defende uma ordem econômica liberal.

É possível encontrar uma pessoa que coloque a religião no centro da família, rejeite a homossexualidade e valorize tradições, mas também defenda redistribuição, controle político da produção e direção estatal da economia.

Essa pessoa pode ser classificada como conservadora no eixo social. Suas preferências econômicas, porém, não satisfazem o critério liberal de direita econômica se ela pretende subordinar a produção e a alocação de recursos à direção estatal.

Também é possível encontrar alguém que rejeite esses costumes, não condene a prostituição nem o uso de drogas e se oponha à proibição estatal dessas práticas, enquanto defende propriedade privada e liberdade contratual.

Essa segunda pessoa pode ser progressista no eixo social e liberal no econômico. A rejeição dos costumes tradicionais não a transforma em defensora de planejamento ou controle estatal da produção.

Os dois exemplos mostram o limite da classificação social. O conservadorismo social não determina uma posição econômica de direita. O progressismo social também não determina uma posição econômica de esquerda.

Nesse ponto, poderia parecer que basta chamar a primeira pessoa de

Nesse ponto, poderia parecer que basta chamar a primeira pessoa de conservadora e a segunda de liberal. Essa solução ainda esconde outro problema: conservadorismo e liberalismo também não podem ser reduzidos a duas listas opostas de preferências sociais.

No uso popular, alguém costuma ser chamado de conservador porque é religioso, defende a família tradicional e desaprova determinadas condutas. Esses sinais permitem descrever preferências, mas não demonstram a existência de uma teoria conservadora coerente.

Como teoria política, o conservadorismo envolve um método mais amplo. Ele valoriza instituições desenvolvidas ao longo do tempo, considera o conhecimento incorporado nos costumes e recomenda prudência diante de mudanças cujas consequências ainda não foram assimiladas.

Uma pessoa pode possuir valores tradicionais sem utilizar esse método. Também pode recorrer a um argumento conservador em determinada questão sem concordar com todo comportamento associado ao rótulo.

A distinção melhora o conceito de conservadorismo, mas ainda não resolve a classificação econômica. A prudência diante de mudanças e a valorização dos costumes não informam, por si, quem deve controlar a produção ou como os recursos devem ser alocados.

O liberalismo introduz outra forma de analisar o problema. Ele também não consiste em uma lista de práticas aprovadas. Seu critério passa pela propriedade, pelo contrato e pelos limites da autoridade.

Um liberal pode desaprovar moralmente uma conduta e rejeitar sua proibição. Também pode considerar um resultado social desejável sem reconhecer em alguém a autoridade para impô-lo aos demais.

Por isso, aprovação e permissão não significam a mesma coisa. Desaprovação e proibição também não. Uma pessoa pode tolerar uma conduta no campo jurídico enquanto mantém uma objeção moral contra ela.

Ao analisar drogas, prostituição, religião, sexualidade ou relações familiares, o liberal não pergunta apenas se concorda com determinada prática. Ele procura saber quem possui autoridade sobre a decisão e se houve agressão, fraude, violação de propriedade ou descumprimento contratual.

Essa é a razão pela qual o liberalismo não pode ser tratado como uma teoria econômica e depois retirado das discussões sociais. Seus princípios econômicos possuem consequências jurídicas porque também limitam quem pode impor uma decisão, proibir uma conduta ou obrigar terceiros a produzir determinado resultado.

A diferença entre liberal e conservador não se resume ao grau de tolerância com cada comportamento. Um conservador pode valorizar a preservação de uma instituição por causa do conhecimento acumulado nela. Um liberal pode avaliar a mesma instituição a partir da autoridade de quem decide, da liberdade contratual e da existência de coerção.

As duas formas de análise podem chegar à mesma conclusão em alguns casos e a conclusões opostas em outros. A concordância sobre o resultado não prova identidade entre os métodos usados para alcançá-lo.

Ainda assim, quando a pergunta trata de esquerda e direita

Ainda assim, quando a pergunta trata de esquerda e direita econômica, o critério institucional oferece uma classificação mais delimitada. Ele permite observar quais mecanismos aparecem nas doutrinas defendidas pela pessoa.

É possível examinar quem controlará a produção, quem alocará os recursos e se as decisões ocorrerão por preços e contratos ou por ordens políticas. Também é possível verificar se a propriedade limita o poder ou permanece subordinada a ele.

Esses critérios não eliminam todas as disputas conceituais. Eles indicam quais elementos precisam ser demonstrados para sustentar uma classificação econômica.

Uma política isolada, por exemplo, não basta para classificar toda a posição de alguém. A defesa de uma intervenção não transforma a pessoa em socialista. A aceitação de alguma liberdade contratual também não a transforma em liberal.

É necessário observar a predominância e a coerência do sistema defendido. A questão é saber se a regra geral deixa a produção e a alocação com proprietários, trabalhadores e consumidores ou se subordina essas decisões à direção política.

A mesma cautela vale quando o objeto deixa de ser uma pessoa e passa a ser um regime. Nesse caso, não se analisam apenas as ideias declaradas pelo governante, mas as instituições que funcionam como regra.

Um governo pode dirigir um setor e manter coordenação descentralizada no restante da economia. O controle desse setor não transforma toda a economia em uma ordem planificada. Para classificar o regime, é necessário demonstrar predominância, controle de setores decisivos ou subordinação constante dos contratos ao poder político.

Também não é válido concluir que tudo aquilo que não pertence à

Também não é válido concluir que tudo aquilo que não pertence à direita econômica pertence à esquerda econômica.

Um regime pode falhar no critério liberal por causa de corrupção, arbitrariedade, clientelismo ou insegurança contratual sem entregar ao Estado a direção predominante da produção. Nesse caso, existem razões para negar que o regime seja liberal, mas ainda falta uma razão positiva para classificá-lo como esquerda econômica.

A fragilidade dos contratos cumpre uma função limitada. Uma ordem que não garante contratos voluntários de forma estável deixa de satisfazer uma condição necessária do modelo liberal. Essa fragilidade, sozinha, não demonstra planejamento.

Para classificar uma pessoa ou regime como esquerda econômica, é preciso definir antes o que essa categoria significa e demonstrar que o caso satisfaz o critério. Se a definição adotada for a direção estatal predominante da produção e da alocação, então será necessário provar essa predominância.

Impostos, intervenções ou contratos frágeis podem indicar uma economia mista, uma ordem corporativista ou um governo arbitrário. Nenhum desses elementos completa a inferência quando aparece sozinho.

É por isso que discussões sobre Hitler, Mussolini ou outros casos

É por isso que discussões sobre Hitler, Mussolini ou outros casos históricos se tornam confusas. Uma pessoa observa o nome do partido. Outra examina religião, família e costumes. Outra se concentra nos inimigos declarados. Outra analisa propriedade, planejamento e controle da produção.

Quando classifico Hitler e Mussolini como pertencentes à esquerda econômica, não estou analisando seus objetivos sociais, sua posição sobre luta de classes ou qualquer outra objeção social que possa ser feita aos dois regimes. Também não estou afirmando que fossem socialmente progressistas.

Minha análise é estritamente econômica: observo quais mecanismos defendiam, quem possuía o poder de decisão e por quais meios a produção e os recursos eram controlados.

Na Alemanha nazista, empresas, preços e títulos privados de propriedade continuaram existindo. Isso não significa que os proprietários fossem livres para decidir como utilizar seus recursos. O Estado centralizou a mobilização do trabalho, controlou salários e preços, restringiu importações, distribuiu matérias-primas e subordinou a produção às prioridades políticas e militares do regime.

A propriedade permanecia privada no papel enquanto sua utilização ficava condicionada à vontade do Estado. Quando o proprietário contrariava os objetivos políticos, prevaleciam a ordem administrativa, a ameaça, o confisco e a força. O regime também congelou e confiscou propriedades, expulsou seus titulares e utilizou trabalho forçado em larga escala.

Portanto, não considero suficiente perguntar em nome de quem estava registrada uma empresa. A questão relevante é quem possuía a decisão final sobre o que produzir, em qual quantidade, por qual preço, com quais recursos e para atender a quais objetivos.

Se o Estado pode substituir continuamente as decisões do proprietário por ordens e retirar sua propriedade quando ele não obedece, existe um título privado, mas não uma propriedade economicamente livre.

Na Itália fascista, a Carta del Lavoro também reconhecia formalmente a iniciativa privada, mas subordinava a organização da produção aos interesses definidos pelo Estado. As organizações profissionais eram politicamente disciplinadas, os contratos coletivos alcançavam categorias inteiras e o Estado reservava para si o direito de intervir na gestão econômica.

É por esse critério que classifico Hitler e Mussolini à esquerda econômica: não porque tenham abolido imediatamente todos os preços ou títulos privados, mas porque utilizaram coerção estatal, planejamento, controle político da produção, redistribuição e subordinação da propriedade aos objetivos do regime.

Socialmente, ambos podem ser classificados como conservadores segundo o critério simplificado de religião, família, costumes e hierarquias. Como já demonstrei, porém, esse método possui baixa capacidade para responder a uma pergunta econômica.

Também não considero o nome do partido, as posições que seus integrantes defenderam anteriormente ou a identidade de seus inimigos como provas econômicas. Ser inimigo dos comunistas não transforma um regime em direita econômica. Inimizade política demonstra conflito por poder, território, estratégia ou objetivos; não demonstra que os mecanismos econômicos sejam opostos.

Entendo também por que essa classificação costuma irritar certas

Entendo também por que essa classificação costuma irritar certas pessoas de esquerda. Frequentemente, ela é interpretada como uma tentativa de normalizar o nazismo ou o fascismo dentro da esquerda, transferindo ao adversário toda a responsabilidade por esses regimes.

Esse não é o meu argumento. Estou separando objetivos sociais de meios econômicos. Duas ideologias podem possuir justificativas, grupos favorecidos e projetos sociais diferentes enquanto utilizam instrumentos semelhantes para controlar propriedade, trabalho, contratos e produção.

Na minha leitura, muitos setores da esquerda defendem mecanismos muito próximos daqueles estabelecidos na Carta del Lavoro: organização política das relações de trabalho, contratos coletivos aplicados a categorias, intervenção direta na produção, redistribuição e subordinação da propriedade a objetivos definidos pelo Estado.

Isso não torna toda a esquerda fascista nem demonstra identidade completa entre as doutrinas. Demonstra que rejeitar os objetivos sociais do fascismo não implica rejeitar todos os seus meios econômicos.

Os resultados históricos desses regimes tornam a comparação ainda mais incômoda. A economia nazista foi subordinada ao rearmamento e à preparação para a guerra, dependia de controles, escassez e expansão territorial e reduziu o consumo material da população mesmo durante os anos apresentados como recuperação econômica.

Minha opinião é que parte do distanciamento ocorre não por uma discordância integral sobre os mecanismos, mas porque reconhecer qualquer semelhança produz um custo político e moral enorme.

A comparação com a Carta del Lavoro é rejeitada muitas vezes não pela demonstração de que os instrumentos são completamente diferentes, mas porque ninguém deseja se aproximar, mesmo parcialmente, de um regime historicamente desastroso.

Essa é uma hipótese sobre o incentivo político por trás da rejeição, não uma afirmação de que toda pessoa de esquerda pensa dessa forma. Quem discordar da comparação precisa mostrar onde os mecanismos diferem: quem decide, como os contratos são impostos, quais limites existem para a propriedade e quanto poder o Estado possui sobre a produção.

Portanto, quando digo que Hitler e Mussolini pertencem à esquerda econômica, apresento uma classificação delimitada. Não estou analisando seus objetivos sociais, seus inimigos, o nome dos partidos ou a totalidade de suas ideologias. Estou analisando quem controlava efetivamente a produção e por quais meios esse controle era exercido.

Antes de rejeitar a conclusão pela associação moral que ela produz, é necessário contestar o critério ou demonstrar que, nesses regimes, a propriedade, os preços e os contratos realmente limitavam o poder político. Caso contrário, a rejeição apenas repete o problema inicial: responde ao rótulo sem analisar o mecanismo.

Finalmente, Erika Hilton acertou em um ponto. Ao comentar o boicote

Finalmente, Erika Hilton acertou em um ponto. Ao comentar o boicote à DiaTV depois da entrevista com Kim Kataguiri, ela disse que o deputado não havia sofrido censura. Para ela, a reação fazia parte do funcionamento normal do mercado.

Kim foi convidado para um programa da DiaTV, cujo público é predominantemente LGBT. Parte da audiência protestou contra o convite por razões ideológicas. Os apresentadores retiraram o episódio do ar e publicaram um pedido de desculpas. Kim então chamou o episódio de censura.

O caso se enquadra em liberdade de associação. Parte do público recorreu ao boicote, e os responsáveis por uma empresa privada decidiram retirar o episódio e se desassociar do convidado. Assisti à entrevista e não vi nada demais. Kim e os apresentadores conversaram com respeito. Parte da audiência preferiu punir o canal por abrir espaço ao diálogo com quem discorda, em vez de confrontar as ideias apresentadas. Cabe criticar essa intolerância, mas uma decisão privada não constitui censura.

Agora esperamos que Erika Hilton aplique o mesmo critério em situações semelhantes, inclusive quando o boicote ou a desassociação atingir alguém ou alguma causa que ela apoie. Consumidores e empresas conservam essa liberdade quando o resultado desagrada à deputada. Ela será coerente se defender o mecanismo sem escolher o princípio conforme o alvo.

Você apresenta um raciocínio, e alguém pergunta: “Qual é a sua

Você apresenta um raciocínio, e alguém pergunta: “Qual é a sua referência?”

“Qual é a sua referência?”

A referência pode estar no próprio argumento.

Quando alguém apresenta uma ideia, o primeiro trabalho é examinar o argumento. Identifique as premissas, verifique se elas são justificadas e veja se a conclusão decorre delas. Depois procure contradições, teste contraexemplos e confira as afirmações sobre a realidade.

O ponto decisivo está no caminho entre as premissas e a conclusão.

Muita gente troca esse exame por uma pergunta mais fácil: quem já disse isso?

Isso não é um convite para acreditar em qualquer opinião. Afirmações sobre a realidade exigem evidências e, quando necessário, fontes rastreáveis. Minha autoria não valida uma ideia. A autoria de um professor universitário ou de um intelectual morto há duzentos anos também não.

Se as premissas estão justificadas e a conclusão decorre delas, o argumento precisa ser enfrentado. Encontrar outra pessoa que tenha chegado à mesma conclusão não altera sua estrutura lógica.

Referências cumprem funções importantes. Em trabalhos acadêmicos, elas permitem rastrear informações, atribuir autoria, localizar evidências e conhecer o debate anterior. Também impedem que alguém apresente como descoberta aquilo que apenas copiou.

O problema começa quando uma ferramenta de rastreamento vira autorização para pensar.

Instituições acadêmicas exigem referências para verificar a origem das informações. Muita gente internaliza esse procedimento e passa a aplicá-lo a qualquer afirmação, inclusive às que o leitor pode examinar pela lógica e pelas evidências apresentadas.

Em vez de perguntar:

“Como você chegou a essa conclusão?”

Perguntam:

“Quem mais chegou a essa conclusão antes de você?”

Quem faz essa troca entrega a validade do argumento a uma autoridade. Se um autor reconhecido disse algo parecido, trata a ideia como séria. Sem um nome conhecido, descarta-a antes de analisá-la.

A pessoa troca raciocínio por um selo de procedência.

Referências continuam úteis. Um autor pode apresentar dados que você não possui, formular um conceito com precisão, antecipar objeções ou desenvolver um argumento com mais profundidade. Nesses casos, a citação amplia a explicação.

Muitas vezes, porém, só o nome permanece.

“Como dizia Mises…”

O fato de Mises ter dito uma frase não explica por que ela é verdadeira.

Talvez Mises tenha apresentado um argumento inteiro antes daquela conclusão. Pode ter definido os conceitos, descrito o mecanismo e respondido às objeções. Quem extrai apenas a frase e a apresenta como prova elimina o raciocínio que poderia sustentá-la.

O resultado é cômico: alguém invoca um intelectual para não reproduzir o argumento que levou esse intelectual à conclusão citada.

O leitor reconhece o sobrenome, empresta o prestígio do autor à frase e aceita a conclusão sem exigir a demonstração.

Um argumento não herda validade de seu autor.

Mises, Marx, Hayek e Foucault podem estar errados. Qualquer um deles pode partir de uma premissa falsa, cometer uma inferência inválida ou ignorar uma variável relevante.

Se a resposta a uma crítica é apenas o sobrenome de quem formulou a ideia, não houve resposta.

Exigir que toda ideia venha certificada por outra pessoa também cria uma contradição. Alguém precisou formular cada ideia pela primeira vez. Naquele momento, não havia uma referência anterior que dissesse a mesma coisa.

Se cada pessoa precisasse encontrar alguém que já tivesse chegado à mesma conclusão, nenhuma ideia nova poderia surgir.

Ideias não aparecem no vazio. Usamos conceitos, observações e conhecimentos desenvolvidos por outras pessoas. Construir sobre esse conhecimento não obriga ninguém a encontrar uma autoridade que já tenha produzido a mesma conclusão.

Você pode ser a sua própria referência.

Isso não concede autoridade especial à sua opinião. Apenas elimina a autoridade externa como condição prévia para que o argumento mereça análise.

Apresente as premissas. Mostre o mecanismo. Demonstre a relação causal. Traga as evidências necessárias. Aceite contraexemplos e responda às objeções.

Depois disso, foda-se quem disse primeiro.

Eu acompanho Sávio há algum tempo. Ele é de esquerda e eu discordo

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Eu acompanho Sávio há algum tempo. Ele é de esquerda e eu discordo dele em muita coisa.

Ainda assim, considero Sávio uma das pessoas mais inteligentes produzindo conteúdo político no Instagram.

E isso não tem relação com concordância.

Tem relação com algo muito mais raro: ele consegue entender o que a outra pessoa realmente está dizendo.

Boa parte do debate político nem chega a esse estágio. A direita

Boa parte do debate político nem chega a esse estágio.

A direita apresenta um argumento em que uma premissa leva a determinada consequência por meio de um mecanismo específico. A pessoa de esquerda não responde ao mecanismo. Ela traduz tudo para o próprio vocabulário ideológico, atribui uma intenção ao adversário e passa a refutar outra coisa.

O argumento deixa de ser aquilo que foi defendido e vira aquilo que o adversário precisa que tenha sido defendido.

Sávio não costuma fazer isso.

Ele tenta reconstruir tanto a posição da esquerda quanto a da direita usando as premissas, os conceitos e os problemas que realmente importam para cada lado.

Primeiro ele entende.

Depois ele discorda.

Isso ficou muito evidente quando ele começou a estudar Burke e o

Isso ficou muito evidente quando ele começou a estudar Burke e o conservadorismo com mais profundidade.

Em vez de tratar o conservadorismo como simples desejo de manter costumes antigos ou preservar qualquer valor existente, ele começou a explicar prudência institucional, conhecimento acumulado, limites da razão individual e consequências imprevistas de mudanças sociais.

E ele faz questão de dizer: compreender isso não significa concordar.

Significa apenas parar de criticar uma caricatura.

Burke é mal compreendido até mesmo por muita gente de direita. Por isso, é curioso ver justamente um criador de conteúdo de esquerda disposto a estudar, reconhecer o que não conhecia e corrigir publicamente interpretações erradas.

E talvez seja exatamente por isso que parte da esquerda esteja

E talvez seja exatamente por isso que parte da esquerda esteja parando de escutá-lo.

Pessoas que antes o admiravam começaram a criticá-lo ou deixaram de acompanhá-lo. Ao mesmo tempo, pessoas de direita passaram a segui-lo, embora ele continue sendo de esquerda.

Sávio não precisou mudar de posição. Bastou deixar de ignorar aquilo que parte do próprio grupo prefere ignorar.

Enquanto sua inteligência servia para mostrar por que a esquerda estava certa, ele era tratado como um grande intelectual. Quando passou a usar essa mesma inteligência para mostrar que a direita também possui argumentos que precisam ser compreendidos antes de serem julgados, tornou-se inconveniente.

Talvez o que parte daquele público admirasse nunca tenha sido sua inteligência.

Talvez fosse apenas a capacidade de alguém inteligente confirmar aquilo em que já acreditavam.

Eu achei que não ia ter mais nada o que falar sobre o ataque à

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Eu achei que não ia ter mais nada o que falar sobre o ataque à parada LGBT em Berlim e as discussões que surgiram depois, mas aparentemente as pessoas estão completamente malucas.

Eu simplesmente abri o Twitter e vi essa moça dizendo que não vai odiar todos os muçulmanos pelo que aconteceu. Sim, isso é óbvio.

Mas então ela argumenta que o “extremismo cristão” estaria tentando se esconder dentro dessa discussão ao apoiar a comunidade LGBT. Segundo ela, seriam apenas homens brancos “homofóbicos” carregando cruzes, com exatamente os mesmos valores do autor do ataque. E, se você tenta se distanciar dele, é porque está “envergonhado” — e deveria estar.

E o mais louco de tudo isso? Logo em seguida, vi um vídeo de outra

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E o mais louco de tudo isso?

Logo em seguida, vi um vídeo de outra mulher, uma alemã que esteve na parada, dizendo estar triste porque o autor do ataque era um homem muçulmano, e não um homem cristão.

Foi exatamente nesse momento que eu soube o que começaria a aparecer.

O próprio Elon Musk respondeu ao vídeo dizendo algo bastante óbvio, embora, para essa gente, possa soar profundamente incômodo

“Eles só têm permissão para odiar homens brancos e heterossexuais, então se comportam como robôs estúpidos. Essa é a programação deles, como NPCs em um videogame.”

Diante de uma situação tão horrível quanto essa, um ataque

Diante de uma situação tão horrível quanto essa, um ataque terrorista contra uma parada LGBT, o episódio expõe uma contradição que muita gente se recusa a encarar: o islamismo político e setores profundamente conservadores de comunidades muçulmanas rejeitam exatamente esse progressismo que tenta protegê-los de qualquer crítica.

O discurso anti-imperialista é conveniente porque reorganiza tudo pela lógica de “oprimidos” e “opressores”. Os judeus podem ter sofrido perseguições históricas, mas, como Israel hoje possui poder militar e é aliado de grandes potências, passam a ser tratados como integrantes do lado dominante. Já os muçulmanos continuam sendo enquadrados como vítimas, independentemente das ideias que defendem ou das agressões que cometem.

E, em vez de compreender a natureza do que aconteceu, identificar o fanatismo que produziu o ataque, transformar isso em um ponto de mudança e demonstrar alguma preocupação real com quem está sofrendo, qual é a primeira reação?

Verificar se as pessoas que odeiam tudo o que você representa não vão se sentir ofendidas pela forma como você descreve o ataque. Porra.

E é engraçado, porque essa mesma bolha fala constantemente sobre

E é engraçado, porque essa mesma bolha fala constantemente sobre “apitos de cachorro” e acusa pessoas, muitas vezes de forma completamente irracional, de serem nazistas por beberem leite ou fazerem algum gesto que lembre minimamente Hitler.

Mas o ódio literal contra judeus? A exclusão de judeus? A responsabilização coletiva de pessoas que não cometeram agressão alguma?

Não, não. Isso não é nazismo. É apenas “antissionismo”.

No fim, eles não estão tão distantes quanto gostam de imaginar.